No momento em que o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) passa a ser utilizado de forma cada vez mais intensa pelo Ministério da Educação, a questão da avaliação do conhecimento dos alunos fica em evidência. Paralelamente ao exame de final do curso, instituições de ensino superior investem cada vez mais em novas formas de averiguação do conhecimento dos alunos ao longo da graduação. Ao invés de provas e seminários, um processo no qual notas e conceitos podem ser abolidos ou os próprios alunos são estimulados a fazer auto-avaliação.
"Não é possível pensar a avaliação abstratamente, ela depende em grande medida do tipo de conhecimento com que se opera", afirma Jaime Cordeiro, professor-doutor da Faculdade de Educação da USP.
Segundo Cordeiro, algumas técnicas de avaliação consideradas inovadoras são a retomada de algumas propostas já sugeridas e até implementadas. Um exemplo é a escola de John Dewey, pedagogo norte-americano que propõe ir além da dimensão individual da aprendizagem, com atividades coletivas. "Isso leva a crer que os instrumentos de avaliação também levem em conta essa dimensão coletiva", completa o professor.
Criado com o propósito de estruturar as dinâmicas pedagógicas dentro do princípio do aprendizado centrado no aluno, o Núcleo de Estudos da Dinâmica do Ensino e da Aprendizagem (DEA), do Ibmec-São Paulo, vai além da questão da avaliação. Pela metodologia da instituição, a equipe pedagógica analisa o propósito do conhecimento, preocupa-se em identificar os objetivos centrais da aprendizagem e, mais importante, examinar o que os alunos sabem e se isso é compatível com conteúdo o proposto nas aulas.
Este último ponto é o que mais depende de formas aprimoradas de avaliação. "A partir desse trabalho, podem-se inserir várias inovações, tanto nas disciplinas individualmente como no programa como um todo, que engloba as diversas disciplinas. É um processo que tem participação direta dos professores, tanto para identificar as competências centrais como para apontar critérios para observar, no cotidiano, se o desenvolvimento do aprendizado foi alcançado", afirma Maria Carolina Costa, gerente do DEA.
Na prática, as avaliações consideradas mais importantes são as informais, não necessariamente visando nota ou conceitos. Elas podem ser realizadas semana a semana ou aula a aula. A atividade faz com que o aluno reflita sobre o que está acontecendo e ganhe autonomia até mesmo para uma auto-avaliação e para buscar seu próprio aprendizado.
Maria Carolina cita alguns exemplos dos formatos de avaliação. Em uma delas, ao chegar no final da aula, o professor pode realizar uma reflexão sobre os temas abordados questionando os alunos sobre qual é o tópico central daquela discussão, além de levantar os pontos mais confusos da aula. "Além da avaliação, é uma ferramenta para que o professor possa 'calibrar' o que está ensinando", diz a gerente do projeto.
Outra prática citada por Maria Carolina é a antecipação dos conceitos que os alunos costumam confundir ou da criação de concepções erradas, algo que também pode ser realizado continuamente. O professor pode confirmar o entendimento no final da aula para identificar e superar distorções conceituais.
A interatividade entre as aulas é um dos pontos percebidos pelo aluno do terceiro semestre de Administração do Ibmec-São Paulo Marco Antônio Vianna Filho, 19. "Pude perceber que, desde a implantação do DEA, o estímulo à participação dos alunos durante as avaliações aprimorou muito a dinâmica do aprendizado, sem contar que é um bom termômetro para o professor tomar diferentes práticas e empreender na aula." Vianna Filho é representante de sala e percebe, em seu dia-a-dia, que os alunos trazem mais sugestões e levantam diversas discussões, além de ficarem mais atentos e preocupados com os métodos de avaliação.
André Florence, 21, aluno do segundo semestre de Economia do Ibmec-São Paulo, também viu um aumento da participação dos alunos, graças ao valor que recebe dos professores. "Isso exige que os alunos estejam em dia com a matéria e bem esclarecidos sobre o que é mais relevante em cada tema", afirma.
Confirmando o trabalho interdisciplinar como um dos principais vetores da avaliação moderna, a Associação de Ensino de Botucatu (Unifac) avalia os alunos por meio de uma prova com essa característica, ao final de cada semestre, elaborada em questões em torno de um tema comum. É uma prova que não só estimula a correlação realizada pelos alunos das diversas disciplinas, mas que traz indicadores sobre o método de ensino aplicado.
A instituição conta ainda, em seu rol de avaliações, com o método continuado. "Toda semana são aplicadas pequenas avaliações que indicam o desempenho do aluno. Elas propiciam dados que podem fazer com que o professor adapte seu planejamento pedagógico, encontrando caminhos para que os alunos alcancem as competências e habilidades necessárias. Ou, em outro caso, o professor pode caminhar mais rápido e avançar nos conceitos se os alunos estiverem dando conta", descreve Vânia de Araújo Silva, coordenadora científica e professora do curso de Pedagogia da Unifac.
Segundo Vânia, um dos fatores que mais auxiliam na formação de metas de aprendizagem é o conhecimento que a escola tem sobre seus alunos, tanto por meio do processo seletivo quanto por meio das próprias provas multidisciplinares. "Conhecemos exatamente o estudante com quem estamos lidando e sabemos de antemão seu nível. Tudo isso é utilizado pelos professores no período de planejamento, visando maior eficiência no processo de aprendizagem", completa.
Todos esses conceitos que começam a ser aplicados na educação só fazem sentido se for considerado um dos principais agentes do aprendizado: o professor. "É sabido que o professor universitário brasileiro, na média, não desenvolveu competências típicas do magistério superior. Por isso, costuma-se dizer que não são professores, mas 'estão professores'. Assim, tendem a reproduzir a experiência que viveram na condição de estudantes, inovando-se pouco", ressalta Manolita Correia Lima, professora da ESPM.
Diante dessas questões, a instituição implementou um programa dedicado à formação docente, chamado Academia de Professores. O programa identifica necessidades didático-pedagógicas dos professores por meio da coordenação da área e encaminha para o responsável, que programa cursos e outras atividades para os docentes.
Para Manolita, com a discussão constante da prática docente, fica mais fácil inovar na avaliação, algo que é estimulado pela instituição, mas mantendo a autonomia dos professores nesse processo. A recomendação é que a prova final não tenha um peso maior do que 30% da média final. As outras avaliações são aplicadas de maneira contínua, por meio de exercícios, simulações de situações reais, seminários, formação de portfólio, trabalhos integrados multidisciplinares, entre outros. "É muito importante implementar atividades que dependem do tempo e dedicação de estudantes e professores, ampliando significativamente as chances de aprendizagem ativa", complementa.
Quando questionada sobre modelos ideais para trabalhar na educação superior, Manolita é categórica: existe o risco de desconsiderar a diversidade de culturas acadêmicas e induzir à reprodução cega das mesmas fórmulas. "Mais do que construir modelos, a comunidade acadêmica da ESPM preocupa-se em formular diagnósticos sustentados por práticas consolidadas de avaliação para poder construir, desconstruir e reconstruir alternativas de trabalho capazes de envolver estudantes desejosos de aprender, desenvolver competências socialmente valorizadas, além de crescer como pessoas e profissionais."
Resistência na escola
Embora os métodos contínuos de avaliação ganhem mais importância em algumas escolas que as tradicionais provas finais, a superação desse tipo de avaliação ainda é visto, no meio acadêmico, como algo distante. Como o trabalho deve ser iniciado de algum ponto, a escola pode empreender esforços no sentido de implantar uma nova cultura no ambiente educacional, de forma a espalhar esses novos conceitos entre professores, alunos, pais e sociedade.
Para o professor da Faculdade de Educação da USP Jaime Cordeiro, essa é uma questão complexa, pois as notas finais se revestem de um peso simbólico dentro da escola, do ponto de vista da gestão dos sistemas escolares e também da sociedade em geral, que cria um conjunto de expectativas em relação ao sucesso ou ao fracasso da aprendizagem individual e do funcionamento geral da educação escolar. Para o professor, mais importante é saber aplicar avaliações adequadas a cada tipo de conhecimento, além de tirar o aspecto solene que marca as situações de avaliação. "É importante mostrar que avaliar, de maneira contínua, é distinto de atribuir nota ou menção e que esse é um momento importante de tomada de pulso do que se está fazendo e da reorientação das atividades, tanto para os alunos quanto para o professor. O objetivo é tornar o processo avaliativo mais naturalizado e integrado ao conjunto das atividades de ensino e da aprendizagem", ressalta Cordeiro.
A gerente do Núcleo de Estudos da Dinâmica do Ensino e da Aprendizagem (DEA) do Ibmec-São Paulo, Maria Carolina Costa, afirma que a principal revolução não é necessariamente a quebra do paradigma da nota ou conceito escolar, mas sim a revisão constante das formas de ensino, o que faz com que o professor não despeje conteúdo torcendo para que, na avaliação final, os alunos tenham aprendido. A idéia deve ser a de garantir uma avaliação planejada, de forma que os alunos tenham consciência sobre o que estão aprendendo, saibam expor o conhecimento e tornem-se agentes do próprio aprendizado.